O ator e seu ambiente
A noção de ator designa todo ser individual ou coletivo cujos interesses, valores e intenções são fruto do cruzamento da necessidade, das suas capacidades e deficiências, de suas ambições e das oportunidades disponiveis ou criadas. Em estratégia a natureza das relações entre os atores pode desenvolver-se segundo a logica de um jogo à soma nula ou constante, onde o que um ganha o outro perde. Neste caso, a interação abre espaço para a concorrência e para o conflito. A outra possibilidade relacional e governada por uma logica de jogo à soma variavel que pode revelar-se positiva. Esta alternativa permite aos atores de associar-se em vista de uma criação de riqueza que eles propõem-se a compartilhar se sua estrategia for coroada de sucesso. Em nivel econômico, esta forma de cooperação existe nas formulas de pesquisa dita pré-competitiva onde os concorrentes agrupam esforços, dentro de certos limites, em vista de conquistar a um nivel que eles nao poderiam alcançar individualmente contando apenas com as proprias forças. Quanto mais o futuro é promissor, mais este tipo de estratégia de relação criativa é possivel, o que parece o caso hoje num mundo poderosamente trabalhado por um progresso cientifico e técnico gerador de rupturas.
O projeto de um ator no seu ambiente, reporta à noção complementar do que esta jogo sendo que a intensidade da competição resulta da importância que cada ator atribui-lhes.Se o ator considera-os como um interesse vital, qualquer ameaça equivale para ele um casus belli, ou seja conflito aberto. A situação e ou a natureza das ambições determinam ou começam este tipo de interesse cuja expectativa provoca uma reação extrema. E porque os Estados Unidos da America julgaram que a segurança do provisionamento em petroleo proveniente dos Estados do Golfo nao poderia ser afetada pelas rupturas do equilibrio geoestrategico, que eles entraram em guerra contra o Iraque. A determinação dos interesses vitais de um ator fundamentam-se em critérios de ordem objetiva e subjetiva. Quando o mesmo comunica explicitamente ao outro onde começam seus interesses vitais, ele determina onde situa-se o limite cuja invasão exigiria o extremo de sua reação. Em revanche, quando ele ambiciona um (enjeu) dado, sua habilidade faz com que ele diminua no outro, o valor que este lhe acordava. No espaço das representações subjetivas reside uma margem de manobra que qualificaremos de psicologica. Quando a consciência da importancia do que esta em jogo é fraca, a determinação em defendê-lo diminui, e isto torna-o mais acessivel economicamente àquele que o ambiciona.
Espaço
Não se faz estratégia apenas por fazer, mas sim porque os atores concebem projetos que vão de encontro à resistência do real ou à hostilidade de outros atores e concorrentes. Porque a politica determina o fin, seja o objetivo, e porque a estratégia concebe e opera os meios necessarios à sua realização. Toda estrategia deve estar atrelada ao projeto de um ator. Perder de vista esta perspectiva que lhe da sentido é condena-a à ações contra-producentes. A titulo de exemplo, é pela sua situação geografica, que o desafio do dominio dos mares impõe-se rapidamente como essencial para a Grã-Bretanha e desde então ela passa a conceber-se como um ator coletivo. Esta consciencia reforça-se proporcionalmente àas ambições coloniais... Dominar os mares com uma marinha superior à soma dos dois primeiros rivais continentais, e manter um equilibrio neutralizante sobre o continente e a paralisia relativa de seu principal competidor, permitiram à Londres de dispor de uma suprema liberdade de ação além-mar mediante a maior economia de forças.
A estrategia é fundamentalmente criativa. Um projeto, entendido como uma visão da mudança, pode transformar por necessidade uma deficiência em ponto de apoio para a constituição de uma vantagem. O Japão, pais desprovido de recursos naturais, retorna esta deficiëncia através de uma mobilização extrema de seus recursos humanos e culturais. Ele concentra-se na impotação de idéias, otimizando-as por meio de sua industria e de seu "savoir faire", terminando por exportar produtos notavelmente melhorados. Este é o objeto da estratégia geral da "Maison Japon".
Independentemente das ambições perseguidas, assegurar-se das condições de sobrevivência constitui o nivel de base que orienta toda estrategia. A simples manutenção de um status quo a requer uma vez que as relações de força, as tecnicas, o que esta e as circunstancias são à permanentes variações. Conservação não significa imobilismo ou abandono de uma postura ofensiva. A permanência de um estado julgado satisfatorio passa com freqüencia por operações limitadas contra fatores de perturbação ou ainda ao encontro de perturbadores mesmo. A partir de uma posição defensiva forte, Carl von Clausewitz recomendava a defensiva-ofensiva feita de golpes limitados mas habilmente aplicados, ou seja um conjunto de ações preventivas exercidas de maneira precisa e pontual.
E' alias raro que as grandes oposições que estruturam uma época não comportem uma parte de colaboração. Os USA e URSS, "beligerantes relativos" da Guerra Fria, dividiam por tras do leque de suas razões objetivas de conflito, um interesse comum superior que lhes impunha de não entrar em uma mecânica perigosa de corrida aos extremos. Os dois grandes a gerir o mundo com inteligencia, porque a manutenção de seu status assim lhes impunha.
Depois do tempo dos blocos nos entramos na era do extrato-mundo. Este espaço sem contornos definidos que é o nosso mundo global com seus tres dominios de mobilidade: o espaço, os oceanos e a massa humana, e o conjunto dos polos ancorados nos estados terrestres, constituem o "extrato-mundo" no qual nos vivemos da mesma forma que o ou os "ecomundos" de Braudel, suas ligações efentuando-se através dos grandes fluxos comerciais do globo. O numero de atores implicados esta ligado ao espaço util e praticavel, e col ele perfila-se a diversidade das culturas. Notaveis diferenças aparecem entre de um lado tempo e espaço objetivos comuns à todos, ou seja, o tempo dos relogios de acordo com o filosofo Bergson e do espaço mensuravel, e de outro lado tempo e espaço vividos remetendo à visões de mundo e à sistemas de valores particulares.
O pensamento estrategico de um ator coletivo, sua maneira de se comportar em um conflito, é o produto da sua geografia o que na historia muda menos como lembrava Bismarck depois de Napoleão, mas tb de seu passado, de suas ambições e das idéias que ele se faz dele mesmo e do mundo. Chegando tardiamente como nação em um mundo dividido por algumas potencias coloniais ocidentais, a Alemanha inventa a geo-politica, sistema de representações estratégicas de espaço a serviço do projeto da "Maison Alemanha". A Gréa-Bretanha cuja hegemonia estendia-se sobre o planeta n2ao precisava de tal instrumento intelectual. Este projeto politico e cultural alemão se concretiza numa malha internacional da linha direta do pensamento de Friederich Ratzel*, criador da geografia politica,da virada do seculos dezenove e vinte. Este projeto coletivo deu origem às redes articulando a nação alemã e suas diasporas baseadas num interesse superior comum afim de captar a informação e de organizar um eficaz sistema de influência.
De acordo com a situação e historia de cada ator, forjam-se comportamentos e reflexos estratégicos mais ou menosespontaneos ou refletidos. Pequenos paises sem profundidade espacial como Portugal e Holanda não podem pensar e comportar-se da mesma maneira que uma Russia-imensidão geografica ou que uma China-imensidão demografica e temporal. Tanto os portugueses como os Holandeses conquistaram uma grande margem de liberdade de ação em relação aos seus potentes vizinhos continentais. A conquista e a atividade maritima lhes conferiram uma mobilidade e um peso estratégico largamente superiores as quais eles poderiam esperar de suas unicas dimensões fisicas na Europa. Em contrapartida, a extensão da Russia e a densidade demografica da China os incitaram a voltar-se para si mesmos.
E no interior desse espaço comum e dividido chamado Terra, que cada um desenvolve sua cultura estratégica: sua maneira de pensar e executar sua opção em ambientes nos quais estão presentes as intenções e atod dos outros. O conceito de extrato-mundo considera esta realidade complexa e interdependente na qual o numero de atores assim como sua inter-dependencia se multiplicam.
A validação de toda estratégia passa pela prova da verdade dos fatos. Todo ator encontra forças e seres agindo cujo comportamento e finalidades não coincidem obrigatoriamente com suas intenç~es. Faz-se necessario antão que ele utilize meios que lhe permitirão alcançar seua objetivos a despeito das forças contrarias localizadas em seu ambiente. Uma estratégia por mais perfeita e intelectualmente sedutora que seja, confronta-se à uma realidade na qual nada, ou muito pouco, se passa extamente como o previsto. O estrategista luta permanentemente contra forças de fricções*, que objetivamente opõesm-se ao desenrolar do plano, seja intencionalmente ou em atos. A entropia afeta a ambição inicial, perturbada pelo que esta acontecendo e pelas flutuações do lugar, dos atores e mutações dos ambientes. Querer não significa automaticamente poder. Outros encontram-se no mesmo caso e a realidade resiste. E preciso prever a variabilidade e sobretudo identificar seus indices, recomenda Beauffre que compara as soluções da estratégia à uma cozinha que deveria casar ingredientes em constante transforamção . Uma vez engajada a ação, a informação e a comunicação asseguram os fluxos entre o centro de decisão e os meios em situação. Elas mantém a tensão de um cabo, e sobretudo, permitem as adaptações.
Tempo
A maneira de representar-se e de viver o tempo, tem uma incidência direta sobre a capacidade estrategica de um ator, sobre suas escolhas e sobre as modalidades de sua execução. Pensar a possibilidade de ação no unico quadro de um presente ou de um futuro muito proximo, limita consideravelmente um jogo que se resume então ao golpe de força ou ao golpe de dados, mediante conseqüências desastrosas que isso pode desencadear. Inversamente, um trabalho no tempo permite imaginar progressões e combinações, e sobretudo mantém a possibilidade de adaptação. Torna-se possivel a partir de então planificar a ação em vista de prazos favoraveis ou de proceder a sua criação se elas fazem falta . Tempo e espaço podem ser intercambiaveis e uma supremacia de um pode compensar uma deficiência do outro. Napoleao depois Hitler pagaram o preço na Russia e aprenderam que o espaço pode se transformar em tempo. Em 1813, as dimensões da ritmica do Russo Koustosov tomaram o passo sobre a cinetica napoleônica que atacava o vazio, defasada que ela estava em um terreno de dimensões inapropriadas para obter uma rapida vitoria. Sobre este mesmo registro, é jogando sobre o tempo que a China ancestral tornou-se grande assimilando culturalmente os lugares de origem de seus conquistadores. Fato singular: esta pais torna a deficiência militar em expansão territorial! Saber jogar com o tempo, dar tempo ao tempo segundo Julio Cesar, para estar pronto nos momentos oportunos faz parte da grande arte do estrategista. Os homens pequenos estão sempre apressados sustenta um proverbio chines? la onde o sabio progride lentamente porque ele domina o ritmo e a visao do conjunto.
Pierre Fayard, copyright 2000
A SEGUIR: As representações japonesas do tempo e do espaço